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A
Internet como manancial de pesquisa
Dentre
os suportes fragmentados de leitura, um merece especial atenção, dado o seu
caráter idiossincrático: a Internet. Para Manuel Castells (2001), a rede de
extensão informacional, conhecida como Internet, tem a sua gênese no período
histórico da Guerra Fria[1], muito embora o seu
desenvolvimento como veículo de comunicação em larga escala somente ocorresse a
partir do momento em que a sua tecnologia adentrou os campi da Universidade de
Los Angeles. A sua origem acadêmica, de certa forma, determinou a sua natureza,
dotando o veículo características contra-hegemônicas, fundamentais na sua
proposta de construção cooperativa e anárquica do conhecimento.
A
Internet constitui — e
esta foi a sua concepção original — uma
rede não-hierárquica de informações, de feição colaborativa. Isso significa que
cada núcleo de expressão deste veículo, cada computador no mundo, é ao mesmo
tempo um polo emissor e um polo receptor de conteúdos. Originalmente, esta
tecnologia visava a reorganização automática da rede comunicacional, em caso de
destruição de algumas das suas matrizes. Desse modo, a mensagem seria
preservada e redistribuída, mesmo que houvesse a eliminação da sua fonte
original. Como tecnologia bélica, a Internet representava a maior expressão de
comunicabilidade já engendrada pela mente humana.
Entretanto,
ainda para Castells (2001), a grande revolução promovida pelo veículo
aconteceria quando da sua passagem às mãos da iniciativa civil. No início dos
anos 70, esgotados os recursos de desenvolvimento de linguagem dos militares,
as tecnologias não-hierárquicas de comunicação foram transferidas às
universidades norte-americanas, para que fossem desenvolvidas. Uma vez nos
campi dessas universidades, as suas linguagens — e também os seus conteúdos e mesmo a sua tecnologia — passaram a ser desenvolvidas
de forma colaboracionista. Várias mentes se debruçaram sobre as suas questões para
resolvê-las conjuntamente, mesmo que estas estivessem separadas no tempo e no
espaço geográfico.
Esse
desenvolvimento coletivo do veículo o caracterizou, no sentido de dotar-lhe de
uma natureza iminentemente interativa. De fato, quase tudo na Rede Mundial de
Computadores é calcado no princípio da interatividade, que simplesmente
pressupõe a capacidade de alterar a mensagem original na fonte emissora, seja
esta mensagem um conteúdo, uma informação, uma linguagem ou a própria
tecnologia do veículo[2]. Desta forma, porquanto
seja interativa e colaboracionista, a Internet é incontrolável. Nesse sentido,
a Rede Mundial de Computadores seria mais do que um veículo de comunicação: se
constituiria num mecanismo de projeção de todas as consciências humanas,
portadoras de saberes, subjetividades e técnicas, organizadas a partir de uma
dimensão socializante e tecnológica comum. Como tal, na opinião de Maria da
Graça Setton (2011), pode-se assumir que a fisiologia da Internet favorece à
assunção de uma maneira toda peculiar de organização psíquica, subjetiva e
intelectual.
Esse fenômeno, segundo Paul Virilio (Ap. SETTON, 2011) é
nocivo ao pensamento humano, posto que a Internet não fomentaria a reflexão e o
debate de ideias, mas tão somente a troca de informações. Do mesmo modo, as
trocas subjetivas não se efetivam, uma vez que o isolamento físico entre os
usuários da Rede Mundial de Computadores, embora conectados pela projeção das
suas consciências, não permitiria uma real socialização, mas apenas a ilusão
desta.
Telma
Romilda Duarte Vaz (2006) também entende que a Internet seja nociva à Educação.
Em nível acadêmico, a nocividade do veículo manifesta-se na sua utilização para
a confecção de trabalhos questionáveis, mal intencionados, fraudulentos, difíceis
de serem verificados, por causa da velocidade com que se multiplicam na rede. A
situação se agrava quando, mesmo o discente idôneo, depara-se com a
possibilidade de, uma vez usando o veículo como esteio de pesquisa, cair na
armadilha de fundamentar as suas ideias num manancial muitas vezes aleatório e
duvidoso de construção do saber. Na Internet, onde quase tudo é criado
coletivamente, há pouca segurança sobre a procedência e pertinência das
informações.
Outra
característica relevante da Rede Mundial de Computadores é o seu caráter
prismático. Segundo Luciano Teixeira Campos (2002), em média, cada página da
Internet possui nove possibilidades de ampliação temática, ou seja, de links que nem sempre são coerentes com o
assunto original. O usuário mediano da Rede costuma flanar dentre essas
páginas, absorvido por conteúdos tão diversos e, não raro, perde a conexão com
o tema inicial da sua pesquisa. A estrutura prismática da Internet, nesse
sentido, assemelha-se ao efeito zapping[3]
televisivo, no qual o telespectador vai mudando aleatoriamente os canais da sua
TV, sem nenhum compromisso para com os conteúdos apresentados. Para Lynn Alves:
A nova
forma de pensar que emerge na comunicação em rede favorece um pensamento mais inferencial, podendo
ocorrer as mais variadas conexões, sem uma preocupação hierárquica, instaurando assim uma lógica
rizomática; a cada nova contribuição despontam novos caminhos, novas
cartografias cognitivas. Essa lógica
rizomática permitirá uma cadeia de associações cognitivas, que tem um
ponto de saída que logo será perdido, em função da busca de novos caminhos que
irão surgir a cada novo link sem
definir, claramente, o ponto de chegada. (2012, p. 03)
As consequências para
a pesquisa acadêmica em Educação são evidentes: além de ser a Internet um
veículo pulverizador da mensagem, por conta do seu caráter colaboracionista,
ela possui ainda a característica de dispersar a atenção do seu usuário, uma
vez que, dada a sua estrutura prismática, remete-o a uma infinidade de assuntos
desconexos, sem que um veio lógico os relacione. Nesse sentido, entende-se que
o veículo Internet somente é útil ao pesquisador que domine previamente os
conteúdos, métodos e escopos do que pretende investigar; entretanto é
desastroso e contraproducente para todos aqueles que ainda tateiam os logros
científicos. A sua estrutura não-hierárquica, colaborativa, interativa e
prismática não corresponde às necessidades individualizantes de uma
investigação científica. Para que este veículo possa atender à pesquisa
científica, faz-se necessário uma sólida formação metodológico-epistemológica
do pesquisador. Uma formação que deve ser obtida da leitura totalizante, do
acesso aos livros e às ideias completas dos seus autores
[1]
A Internet foi gerada a partir da
extinta agência ARPA, subordinada à Inteligência Militar do governo
Norte-americano, num momento de tensão político-ideológica conhecido como
Guerra-Fria. Inicialmente, o projeto ARPANET visava a criação de uma rede de
comunicações não-hierárquica, que sobrevivesse a um conflito nuclear, algo que
parecia iminente, sobretudo nos anos 60 do século passado.
[2] Quando Richard
Stallman concebeu o conceito de Copyleft,
em 1988, ele estava na verdade elevando à máxima expressão o conceito de
interatividade. O Copyleft representa
uma patente aberta, que permite não somente o uso coletivizado dos produtos,
como também a sua alteração em função da necessidade do usuário.
[3] O zapping
pode ser descrito como uma prática obsessiva do telespectador, que troca
compulsivamente os canais da sua TV, à menor variação no ritmo da programação.
O zapping se manifesta sobretudo nos
momentos do break comercial.
Referências
ALVES, Lynn Rosalina
Gama; SILVA, Jamile Borges da. Educação
e cibercultura. Salvador: EDUFBA, 2001. P. 154.
CAMPOS, Luciano
Teixeira. O olhar sob a rede. Recife:
Maná, 2002. P. 101.
CASTELLS, Manuel. La galáxia internet. Madrid: Areté,
2001. P. 302.
SETTON, Maria da Graça.
Mídia e educação. São Paulo:
contexto, 2011. P. 126.
VAZ, Telma Romilda
Duarte. O avesso da ética: A questão do plágio e da cópia no ciberespaço. Cadernos de Pós-Graduação-Educação. São
Paulo, v. 5, nº 1, p. 159-172, 2006.






